Linguagem inclusiva na empresa: o que é, e como aplicar

O objetivo da linguagem inclusiva é trazer a representatividade e identificação por meio da abordagem falada ou escrita. 
Tempo de leitura: 6 min
Linguagem corporal

A linguagem inclusiva é um instrumento de comunicação, textual ou oral, que se preocupa estruturalmente em não excluir ou diminuir nenhum grupo de pessoas através de adaptações de vocabulário, sem mudar o idioma e suas regras. Seu objetivo é trazer a representatividade e identificação por meio da abordagem falada ou escrita. 

Construir a diversidade e a inclusão passou a ser um dos maiores objetivos do século XXI. Por conta disso, essa tendência da linguagem inclusiva está adentrando em todos os setores da sociedade e passou a ter prioridade e um alto valor no mundo corporativo. 

Mas para promover a diversidade e a inclusão nas empresas, o trabalho precisa se concentrar nas mudanças de hábitos e em novos mindsets, ou seja, ações simples do dia a dia.

Hoje, a comunicação interna e externa das empresas é base para o seu crescimento e sua estabilidade. 

Mais que isso, a linguagem é um instrumento que reproduz valores e crenças, muitas vezes, de forma inconsciente, influenciando comportamentos e pensamentos inclusivos ou de opressão social. 

Logo, para ampliar as políticas internas de diversidade das empresas, a linguagem inclusiva passou a ser um elemento-chave para a concretização da inclusão proposta. 

Neste artigo, você vai aprender o que é a linguagem inclusiva, como usá-la no seu negócio, além de suas vantagens e importância para os colaboradores.

O que é linguagem inclusiva

De maneira bem simples, trata-se de um instrumento de comunicação, textual ou oral, que se preocupa estruturalmente em não excluir ou diminuir nenhum grupo de pessoas através de adaptações de vocabulário, sem mudar o idioma e suas regras. 

Em outras palavras, é uma linguagem que agrega ao invés de excluir e agredir e, assim, engloba todos os tipos de narrativas sem mudar a língua portuguesa e sua gramática. 

Ainda a linguagem inclusiva tem como objetivo trazer a representatividade e a identificação por meio da abordagem falada ou escrita. 

Dessa forma, ela faz referências a todas as pessoas que estão na empresa, individual e coletivamente. Isso concretiza a inclusão social, no ambiente organizacional, de todos os grupos da sociedade.

No caso da língua portuguesa, é ainda mais importante adotarmos a linguagem inclusiva, uma vez que, desde os anos de 1960, o gênero masculino passou a ser considerado o gênero neutro do idioma. 

Dessa forma, o português se construiu e ainda se constrói no cotidiano com fortes marcações de gênero. Por isso, para não dar continuidade a esses costumes de exclusão e garantir a plena inclusão de um colaborador na empresa, o cuidado com a linguagem inclusiva deve ser adotado.

Diferença entre a linguagem inclusiva e a linguagem neutra

Linguagem inclusiva e linguagem neutra são abordagens diferentes em relação a como a linguagem pode ser utilizada para quebrar o ciclo da exclusão social e da desigualdade. 

Mas apesar dessas diferenças, as práticas são complementares, portanto, recomenda-se que sejam adotadas lado a lado com a política de diversidade das empresas.

A linguagem inclusiva, como mostrado acima, apresenta adaptação nas falas e nos textos, a fim de incluir todos os colaboradores, sem mudar o idioma e suas regras gramaticais. 

Já a linguagem neutra se apoia na modificação ou criação de novas palavras, para que a tradição linguística seja completamente quebrada.

Nem melhor, nem pior, são linguagens que utilizam estratégias diferentes, adaptação ou transformação, para chegar ao mesmo resultado: inclusão plena.

Qual a importância nas empresas

A linguagem, no âmbito geral da sociedade, tem impacto individual e coletivo, o que, institucionalmente, transforma ou mantém sistemas. 

A diversidade vem sendo um dos principais palcos de mudanças sociais nos últimos tempos, logo, se a empresa não acompanhar esses avanços sociais o ambiente de trabalho será cada vez mais hostil.

Com isso, o seu negócio se afastará do foco do mercado: que são empresas que apresentam boas condutas em relação à sociedade, meio ambiente e governança.

Ainda, é preciso lembrar que o capital humano é base estruturante de qualquer empresa, portanto, a integração, o bem-estar e a identificação do colaborador são importantes para um bom ambiente de trabalho e uma maior produtividade.

Dentro dessa lógica podemos pensar em diversos benefícios do uso da linguagem inclusiva nas empresas, tanto para os negócios como para os colaboradores. 

Dentre eles, podemos citar:

  • comunicação interna e externa mais eficiente;
  • diminuição de conflitos na equipe;
  • aumento da sensação de pertencimento e identidade, o que diminui a taxa de turnover da empresa;
  • garantia de um employer branding, já que o colaborador se sente incluído e pertencente àquela marca;
  • a empresa cumpre seu papel social e inclusivo, apresentando condutas sociais importantes para o mercado (ESG);
  • a empresa se mostra como um local de apoio e base para o colaborador, trazendo mais lealdade e confiabilidade;
  • melhoria da imagem da empresa no mercado;
  • coerência com as transformações sociais do presente e reafirmação do papel da empresa nessa transformação para um mundo inclusivo;
  • destaque com o público: sendo eles clientes ou possíveis colaboradores;
  • a empresa se torna fonte de denúncia e reflexão frente a problemas sociais, como o machismo, a intolerância de gênero e o racismo;
  • valorização, respeito e acolhimento à diversidade de maneira horizontal e sem privilégios.

Tipos e como aplicar

Existe uma infinidade de formas e combinações para se utilizar da linguagem inclusiva na rotina de trabalho. 

Por ser uma língua complexa, no Português não faltam opções para adaptações mais inclusivas. 

Mas é possível citar alguns tipos de linguagem inclusiva que tornam esse complexo exercício mais concreto: 

  • linguagem não-sexista (sem exclusão dos diversos tipos de gênero);
  • comunicação não violenta (comunicação com empatia);
  • linguagem anti-racista e anti capacitista (linguagem que evita uso de expressões racistas ou que pré-julgam a capacidade das pessoas).

Dentro dessas linguagens, algumas estratégias nos ajudam a aplicar esses tipos:

  • concentre no uso de coletivos e palavras genéricas para se dirigir a um grupo de pessoas. Ex.: usar “a juventude” ao invés de “os jovens” e “classe política” ao invés de “os políticos” etc. (linguagem inclusiva, não-sexista);
  • preocupe com o pronome para se dirigir e fazer referência a alguém;
  • tenha cuidado com os adjetivos sexistas e opte por expressões neutras e generalistas;
  • não utilize adjetivos ou palavras que transmitam convenções sociais estereotipadas. 

Os cuidados com a linguagem inclusiva

Apesar de ser um conceito bem simples, a linguagem inclusiva é um exercício complexo e muito sensível, pois trabalha com a identidade das pessoas. 

Por esse motivo, pode ser desafiadora a implantação da linguagem inclusiva nas empresas. 

Mas isso não é motivo para não aplicá-la, e sim para ficar atento a alguns detalhes:

  • apesar de ser recomendado utilizar expressões genéricas e neutras, é preciso tomar cuidado para não reduzir identidades e simplificar as complexidades das pessoas. Lembre-se de sempre considerar a interseccionalidade e valorizar o indivíduo.
  • em um primeiro momento, pode parecer desconfortável implantar mudanças no vocabulários das pessoas, por isso é importante aprofundar na compreensão dos seus colaboradores em relação ao vínculo da linguagem com o poder e a cultura.
  • tome cuidado com o “lugar de fala”, mesmo com a utilização da linguagem inclusiva, é sempre importante prestar atenção em quem está falando e qual é o seu “lugar social”. É essencial esse reconhecimento para valorizar as individualidades dos colaboradores e respeitar suas histórias e lutas.
  • novos problemas de comunicação podem surgir, por exemplo, uma maior dificuldade para pessoas com deficiência visual compreenderem a linguagem inclusiva escrita e, muitas vezes, a comunicação ficará mais longa e repetitiva. Para essas questões, é importante ficar atento às necessidades individuais, estar aberto ao feedback dos colaboradores e lembrar que a língua é plástica e completamente adaptável às novas demandas.

Como colocar em prática através do RH

Quando estamos falando de um cuidado com os colaboradores, o setor de Recursos Humanos se torna o centro na implantação dessas atividades. Não é diferente em relação à linguagem inclusiva. 

Uma das principais funções do RH é a gestão de capital humano, e essa gestão engloba: a inclusão, a compatibilização da identidade do colaborador com a empresa, a inserção no time e o acolhimento. 

A linguagem inclusiva faz parte de todo esse processo e é central para a gestão de pessoas e para a cultura organizacional da empresa.

Mas para implantar a linguagem inclusiva, o setor de RH tem que tomar algumas providências essenciais para que, aos poucos, ela se torne um hábito. 

Dentre as atividades de responsabilidade do RH que podem conduzir a construção da linguagem inclusiva, podemos sugerir as seguintes:

  • no onboarding, pergunte aos novos colaboradores como eles gostariam de ser referenciados: nomes, pronomes e palavras que as pessoas e as comunidades escolheram. A partir desse momento, inclua em todas as formas de comunicação os pronomes escolhidos;
  • conteúdos de marketing, sites e outras ferramentas de comunicação externa devem refletir a linguagem inclusiva interna;
  • escolha sempre narrativas variadas para os conteúdos da empresa;
  • avaliação rotineira de comunicação e relação, por meio de pesquisas, reuniões e feedbacks individuais;
  • comece a implantação pelas lideranças, pois esses devem ser o exemplo de comportamento e de mudança de mentalidade; 
  • promova conhecimento sobre inclusão social e linguagem inclusiva. Conscientização e educação dos colaboradores são essenciais para a absorção dessa nova linguagem;
  • utilize cartilhas, espaços físicos e virtuais e eventos para a orientação dos colaboradores e proposição de novas práticas;
  • adote a linguagem inclusiva em todos os meios de comunicação interno: e-mails, comunicados, eventos internos etc.;
  • divulgue canais e conteúdos que ampliem o conhecimento sobre diversidade;
  • implante o hábito de constante reflexão e autocrítica sobre as palavras e a forma de comunicar entre os colaboradores. É um exercício constante que exige dedicação;
  • enfatize como principal valor da empresa o respeito às escolhas e preferências alheias e o fato de que a linguagem deve refletir isso.

Agora que você já sabe todo o caminho da implantação da linguagem inclusiva e entende a importância dela para a concretização da diversidade na empresa, comece a praticar essas mudanças na comunicação e lembre-se do papel central do RH! 

Foto de Camila Rocha
Camila Rocha
Gerente de marketing de educação e influência na Sólides com MBA em Marketing Estratégico e mais de cinco anos de atuação em Inovação e Gestão de Pessoas. É especialista em educação corporativa, avaliação de desempenho e PDIs, dedicada a conectar o desenvolvimento continuo de talentos aos objetivos estratégicos das empresas.

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